O quanto é suficiente pra você? Quanta motivação você tem no tanque? Até onde você consegue ir, quanto você consegue se esforçar?
Penso que todas essas perguntas podem ser melhor respondidas e também moduladas ou treinadas se entendermos algumas coisas importantes sobre como a gente funciona.
Primeira premissa importante. O objetivo do cérebro é o corpo. Isso quer dizer que o objetivo de tudo que acontece dentro de você, pensamentos, emoções, é movimentar o seu corpo na direção de comportamentos adaptativos, ou seja, que favoreçam a sua sobrevivência. Essa é a base evolutiva de toda a nossa biologia.
Então, pra ela, o que importa é o que se transforma em ação. Isso é o que vai ditar os rumos da sua adaptação, vai definir pra onde você vai caminhar, ou seja, vai definir quem você será no futuro. Quem define o quanto você é capaz são os seus atos. Seu corpo não se importa com o seu querer. Sobretudo se ele não se transforma em ação. Ele se importa com o seu fazer.
Na prática
Vou mostrar como isso acontece na prática. Digamos que você quer criar uma rotina regular de atividades físicas. Então você decide que hoje você vai fazer algo a respeito. Você vai lá, se inscreve na Impulso e faz sua primeira aula de movimento.
Frustração, aprendizado, dores, cansaço. Mas foi bom. Você gostou. No dia seguinte, um pouco dolorido, se pergunta: devo ir? Talvez não, vai ser um pouco puxado, melhor ir com calma. Vou amanhã.
Chega amanhã. Só que, no trabalho, surge uma demanda imprevista. Você sai um pouco mais tarde. Se quiser ir praticar vai ter que correr. E o seu trabalho já é estressante o suficiente. Você decide não ir. Deixa pra um dia mais tranquilo.
Nesse momento, você agiu. Você tomou uma decisão que se transformou em comportamento e disse pro seu sistema: em dias mais puxados, eu não vou praticar. Você estabeleceu uma hierarquia de prioridades e um limite pra sua prática. Sua ação mostrou pra sua biologia que a sua prática só vai acontecer em dias normais. Dias sem imprevistos.
O princípio de Donald Hebb
Toda decisão é precedida pelo disparo de determinados neurônios, de uma forma específica, com um timing específico. E essa sua decisão não foi diferente. Pelo princípio hebbiano que fundamenta a nossa neurologia, neurônios que disparam juntos tendem a se conectar. Em termos mais comuns, isso quer dizer que, quanto mais vezes você toma uma decisão, mais forte ela será em você. Mais chance ela terá de ser repetida no futuro.
Nenhuma decisão, sozinha, tem o poder de definir o futuro. Mas cada pequena decisão vai se acumulando e, com o tempo, forma quem nós somos. É como se cada uma delas fosse um dedo sendo passado em um bloco de argila. Aos poucos, vai formando um caminho. E quanto mais esse caminho se repete, mais fácil vai se tornando repetir esse caminho. Como uma trilha. Ou um fluxo de água na terra.
E as primeiras decisões contam bastante. Porque é como se, no início, fosse tudo mato. Então qualquer pequeno caminho, qualquer indício mínimo de direção já ajuda a guiar neurônios que não sabem muito bem pra onde ir.
E veja. Haverá muitos dias puxados pela frente. E outros imprevistos, demandas extras de todo tipo. Situações “excepcionais” são mais comuns do que a gente costuma pensar, sobretudo quando o critério de excepcionalidade que a gente estabeleceu é baixo.
Agora voltando à nossa historinha.
Como você é iniciante, e sua vida é corrida, achou melhor se inscrever no plano de 2x na semana. Só que com o tempo, os imprevistos vão acontecendo e os dias puxados se acumulam mais do que você esperava. E você acaba indo mais 1x do que 2x na semana.
Resultado? Você vai ficando pra trás. As aulas ficam difíceis de acompanhar. Mais frustração. Menos aprendizado. Com o tempo, você acaba desistindo. Ou até pior, pensando “isso não é pra mim”. E se culpa por não ter motivação, por sempre começar e parar… mais uma vez… E se sente realmente uma pessoa preguiçosa.
Não é fácil. Mas é importante você ter clareza de que não se trata de uma falha moral. Porque preguiçosos todos somos. A lei de conservar energia quando possível nos foi agraciada pela seleção natural e está presente em todo animal vivo. Você não é especial nesse sentido. E não te ajuda pensar dessa forma.
Ajuda entender que a sua dificuldade foi resultado de um conjunto de fatores que estavam fora do seu controle – os imprevistos – mas que levaram a um certo comportamento que, esse sim – em alguma medida – estava um pouco mais no seu controle. Que foi o ato de não ir pra aula. E que acabou mostrando pra sua biologia o que fazer. E a partir daí, ficou mais fácil repetir esse pequeno “hábito” que começou a se formar.
O dia D
Na nossa historinha, qual foi o momento central onde tudo poderia ter mudado?
O dia difícil.
Sempre teremos dias difíceis. E se, no dia difícil, você age, você faz mesmo assim – da forma que der, devagar, com calma, mas faz – você tá mostrando uma coisa muito importante pro seu sistema. Você tá mostrando que dias difíceis virão, mas que você vai agir mesmo assim. Que você vai fazer o que tem que ser feito. E você tá mostrando da forma que realmente importa e que sua biologia vai ouvir e respeitar. Pela ação.
Não é se flagelar ou fazer a qualquer custo. Não é passar por cima de todo dia difícil. Mas é ter clareza do quanto você quer algo e saber que se você não tiver um fazer que corresponda ao tamanho do querer, esse querer não te serve de muita coisa. E ele vai virar culpa, frustração.
Também não é supor que uma pequena vitória sobre um dia difícil vai resolver todos os seus problemas. Mas é saber que construir a vida que queremos é sobre isso. Sobre fazer.
Porque esse fazer, com o tempo e pelo mesmo princípio hebbiano que a gente falou lá em cima, tende a se fortalecer quanto mais você o repete. Mielinização é o nome que se dá pra isso. E chega um momento que você faz tantas vezes que aquilo se torna parte de quem você é. Não é mais um algo que você faz. Se torna quem você é. Sua identidade. E aí deixa de ser um esforço.
O que aconteceu aqui? Seus atos, seu comportamento, mostraram o caminho pra sua biologia. Sua ação disse pra onde sua biologia deveria ir, se adaptar, se tornar. E agora você é essa pessoa. E aí a magia acontece. Motivação infinita. Quando você, através da ação, transforma alguma coisa na sua identidade e se orgulha disso, aí motivação deixa de ser uma questão. Ela simplesmente acontece.
Sobre amor
Somos seres complexos, em um mundo complexo. Sempre há muitas formas de agir no mundo. Toda decisão, todo comportamento, é resultado da vitória de uma possibilidade sobre outra possibilidade. De um desejo sobre o outro. De uma opinião, sobre a outra. E como nós somos seres que aprendem, a possibilidade, o desejo, a opinião que vence uma luta, que se transforma em ação, fica mais forte. A que perde fica mais fraca.
E o nosso corpo guarda a motivação pras coisas que ele considera importante. Então, se você mostra que algo é importante pra ele, ele vai te dar mais motivação pra fazer aquilo. Essa é a magia e o contra-senso da motivação. Em alguma medida, quanto mais você faz, mais você tem energia pra fazer.
Quando você valoriza algo, você se sacrifica, você abre mão de coisas. Mas a via é de mão dupla. Se sacrificar, abrir mão de uma coisa por outra, sinaliza pra sua biologia que você valoriza aquela coisa. Então se você quer que o seu corpo te dê motivação pra fazer sua prática física, ou qualquer coisa, de vez em quando convém abrir mão de algo que você gosta em troca de ir lá e fazer o que tem que ser feito.
Nada substitui o fazer. O objetivo do cérebro é o corpo.
Percebe? Não há abstração, pensamento, ou análise que substituam a ação quando o assunto é produzir mudança. Talk is cheap, falar é fácil, dizer que quer algo é fácil. A sua biologia não liga muito para o que você fala. Ela se importa com os seus atos. Até mesmo as nossas emoções, que tem um poder enorme sobre a gente, só existem como fundamentadoras da ação. O papel evolutivo de uma emoção é nos empurrar na direção de certos comportamentos que favorecerão nossa sobrevivência.
Veja bem, pensamentos e emoções são o fundamento de quem somos, mas o que quero dizer aqui é que eles só existem na medida em que são capazes de transformar a nossa ação no mundo.
Percepção e ação estão intrinsecamente acopladas. Não existe ganho de percepção verdadeiro se não houver uma ação subsequente como resultado desse ganho. E por outro lado, a ação traz, o movimento traz, uma mudança de perspectiva que traz um novo ganho de percepção. Isso é o que faz a roda girar.
Seu cérebro, seu corpo, suas células, sua biologia só respeitam a ação. O resto é meio. O seu sistema não se importa com as suas justificativas. Sua biologia, como toda a natureza, é amoral. Ela não julga suas razões. Ela só obedece aos seus atos.
Ele não se pergunta se realmente era justo você ir ou não ir praticar, se as suas prioridades estavam certas ou erradas, se o trabalho ou o seu cansaço era mais ou menos importantes do que a prática. Ela só está querendo saber qual vai ser a decisão final. E com base na sua decisão, no seu comportamento, no fazer, ela vai gerar as adaptações necessárias.
Se uma situação X (imprevisto) justifica um ato Y (não ir praticar), sua biologia vai aprender com isso. E repetir esse comportamento no futuro será cada vez mais fácil, mais automático, fará mais parte de quem você é. E claro, o contrário também é verdadeiro.
Esse é o aprendizado mais importante. E não estou aqui pra dizer que é fácil. Nunca vai ser. Mas é simples. Sua ação determina sua adaptação. O jogo funciona assim. Gostemos ou não. Achemos justo ou não.
Estamos em constante adaptação e mudança. E quem constrói o seu “eu” do futuro são seus atos. Não seus sentimentos ou pensamentos. Estes são apenas meios.
Lembre sempre disso. O objetivo do cérebro é o corpo. Espero ter ajudado.

