Se eu te mostrar essa imagem e disser: Olha com atenção pra ela. Tenta perceber todos os detalhes.
Pode voltar a olhar. Com atenção de verdade. Todos os detalhes.
Agora eu te pergunto. Sem olhar de novo pra foto. Quantas lâmpadas aparecem na foto? Quantas pessoas estão descalças? Qual a cor da calça da menina de branco? E da caixa, atrás da pessoa sentada com as pernas esticadas?
Provavelmente você teve dificuldade de responder essas perguntas. Mesmo que você tenha prestado atenção, dificilmente você conseguiu perceber todos esses detalhes.
Esse mesmo exercício pode ser feito como uma música. Ou com qualquer sentido. Até com a sua interocepção. Por exemplo. Apesar do seu coração estar batendo, você não está percebendo. Mas talvez, se você parar por tempo suficiente para focar a atenção nele, você será capaz de perceber.
Então a pergunta que fica é: Porque você não percebeu esses elementos antes, mesmo eles estando diante dos seus olhos?
Não é como se não tivéssemos sentidos para percebê-los. Como, por exemplo, não temos a capacidade de perceber as ondas do campo eletromagnético da terra que as tartarugas percebem e usam como um GPS. Ou como as ondas sonoras emitidas por morcegos pra se ecolocalizar. Porque agora, se você olhar a foto de novo, não vai ser nada difícil perceber todos esses detalhes. É como se a sua percepção tivesse sido alterada e ampliada pelas perguntas que eu fiz.
Então porque não percebemos antes? Porque só depois das perguntas é que esses detalhes se tornaram perceptíveis?
Porque nós não percebemos todos os sinais que chegam até os nossos sentidos. Nós só percebemos uma parte desses sinais. A parte que importa. Como não havia uma demanda real do seu ambiente para perceber esses detalhes na foto, seu sistema nervoso não as considerou relevantes o suficiente para processá-las e transformá-las em informação conscientemente percebida.
E isso faz muito sentido evolutivo. Saber distinguir, de toda a informação que nos alcança, aquilo que é importante daquilo que não é importante é fundamental para a nossa sobrevivência. Afinal, é para isso que temos sentidos. Para perceber informação do ambiente que é relevante para a nossa sobrevivência.
Portanto, ver, ouvir, sentir, não é o mesmo que perceber. Perceber é uma qualificação do ver, do ouvir ou do sentir. E nesse sentido, será sempre um recorte de toda a informação que os nossos sentidos recebem. É preciso fazer recortes. A percepção precisa ser seletiva.
O que nos faz humanos? E o que nos diferencia como humanos?
Em condições normais, todos somos dotados dos mesmos sentidos. Algumas pessoas ouvem melhor ou pior, veem melhor ou pior, mas nós criamos tecnologias para minimizar essas diferenças como óculos, aparelhos auditivos… E não podemos atribuir a essas diferenças a responsabilidade por sermos tão diferentes uns dos outros. Não são os meus 2 graus de miopia e nem a minha audição um pouco ruim que me tornam único e singular no mundo.
O que realmente nos torna únicos e diferentes uns dos outros não está nos nossos sentidos. Não é sobre os sinais que nos chegam através dos sentidos. É sobre o processamento que fazemos desses sinais. Sobre como os transformamos em percepção. O que nos faz únicos é a nossa percepção do mundo. A forma como o interpretamos.
Mas porque a nossa percepção de mundo varia tanto? Porque percebemos coisas tão diferentes uns dos outros? Porque a subjetividade tem todo esse peso no humano, que não parece existir com tanta intensidade em outros animais?
Porque nós temos uma ferramenta perceptiva especial, que é responsável em grande medida pelo nosso sucesso evolutivo. A essa ferramenta damos o nome de cérebro. Muitos animais têm um cérebro, mas nenhum, até onde sabemos, tem um cérebro tão complexo e corticalizado quanto o nosso. O cérebro humano é capaz de fazer associações complexas, aprender novas coisas e de se transformar de forma profunda em resposta às demandas do ambiente que o cerca. E esse cérebro nos permite expandir nossa percepção da realidade sem precisar desenvolver novos sentidos para isso.
Ele nos permite até manipular recursos do mundo para criar tecnologias que nos permitem criar novos sentidos. O que a evolução, em seu processo de seleção natural, precisa de milhões de anos para desenvolver, o cérebro humano consegue fazer dentro do tempo de uma vida.
Podemos ver coisas invisíveis aos olhos a partir das tecnologias do microscópio e do telescópio. Criamos ferramentas extremamente complexas de transmissão de informação que prescindem da presença de um ser humano. Chamamos isso de escrita. Expandimos nossa capacidade de fala para muito além dos seus limites audíveis ao criar instrumentos que transformam nossa voz em ondas de rádio, que são captados e codificados para voltar a se tornarem voz em outro canto do mundo. Criamos ferramentas que permitem os olhos humanos enxergarem através da pele, da fáscia, dos músculos, órgãos e ver até o que acontece dentro do nosso crânio. A complexidade do nosso cérebro permite que nós vejamos uma pessoa que está há milhares de quilômetros de distância de nós.
Uma das capacidades mais fundamentais e mágicas do ser humano é essa capacidade de usar o seu cérebro para expandir, dentro do tempo da sua própria vida, os limites da sua percepção.
O contador, a botânica e a cultura do movimento
Vamos imaginar uma cena que representa de forma muito clara a capacidade do cérebro de alterar a nossa percepção da realidade através de aprendizados feitos em vida.
Imagine duas pessoas olhando para uma mesma paisagem. Um contador e uma bióloga especializada em botânica. E a paisagem é uma floresta de mata atlântica. Os dois estão vendo a mesma coisa. Recebendo os mesmos sinais sensoriais. Mas cada um está percebendo coisas completamente diferentes.
Enquanto o contador está percebendo um amontoado de árvores e barulho de mato, a bióloga está percebendo uma babosa branca em desenvolvimento, um araçá amarelo que precisa de um pouco mais de sol e uma canela guaicá que teve seu crescimento atrapalhado por falta de espaço para espalhar suas raízes. Ao mesmo tempo, ela percebe o canto distante de uma araponga. Provavelmente um macho tentando atrair a fêmea.
Se você fosse abandonado numa floresta e tivesse que escolher entre o contador ou a bióloga para te acompanhar, quem escolheria? Resposta fácil.
O contador e a bióloga estão recebendo a mesma informação luminosa nos olhos. Mas estão percebendo realidades inteiramente diferentes. Porque a bióloga, ao contrário do contador, passou em sua vida por um processo de aprendizado que refinou sua percepção sobre aquele ambiente. Se a imagem da floresta fosse trocada pela imagem de uma planilha de excel, a realidade provavelmente se inverteria.
Mas o que tudo isso tem a ver com a cultura do movimento?
Vamos agora, finalmente, trazer toda essa questão da percepção para o campo do movimento e das atividades físicas.
Pense numa atividade física convencional. Ir para uma academia, correr um pouco em uma esteira enquanto vê televisão ou mexe no celular, e depois empurrar e puxar alguns aparelhos. Cadeira confortável, ângulos ideais, ergonomia e conforto.
Agora a pergunta: qual o ganho perceptivo que essa prática traz? No que ela enriquece a sua percepção de possibilidades de movimento e interação do seu corpo com o ambiente que te cerca?
Pouca. A força isolada que você faz em um aparelho estável e linear, pode, com muita dificuldade, se transferir para alguma força que você tenha que fazer no mundo real. Mas essa transferência é bem limitada. Porque não existem aparelhos no mundo real. Nem esteiras. Mas sim, algum ganho de condicionamento vai acontecer e você pode se sentir um pouco mais capaz de fazer uma corrida leve aqui e ali.
Mas o mais comum é que, mesmo indo pra academia, você siga se sentindo descoordenado, pouco flexível e sem grandes capacidades motoras. Não há muitos ganhos de percepção de ação no mundo por aqui.
Uma aula de movimento
Agora vamos imaginar uma aula de movimento. Digamos que nessa aula você aprenda a fazer uma ponte rotacional na parede (tá tudo bem se você não tiver ideia do que é isso). Um movimento estranho, difícil à primeira vista. Espiralado, complexo. Depois você faz alguns saltos em distância junto com uma série de penduradas em uma barra. Cansativo e doloroso pras mãos. Em seguida uns rolamentos, um flow meio desajeitado no chão e um trabalho esquisito de coluna em dupla. Frustrante. Ao final, uma meditação e uma técnica respiratória. Sua mente agitada não consegue parar. Mas pelo menos a respiração te acalma. Tudo só não é mais frustrante ainda porque você vê que, em maior ou menor medida, todas as outras pessoas estavam tendo tanta dificuldade quanto você.
Qual foi o seu ganho perceptivo com essa prática? O quanto ela vai expandir as suas possibilidades de movimento e de interação com o mundo real? Vamos lá.
Talvez um dia que você estiver passeando com seu cachorro e for arremessar uma bola pra ele, você perceba que o espiralamento que seu braço faz é o mesmo que você sentiu na ponte rotacional que fez na aula de movimento. E talvez você perceba que seu arremesso está mais fluido e forte. Talvez até uma pequena dor que você sentia, possa não estar mais ali.
Uns dias depois, sem querer, você percebe que acabou de pular uma poça razoavelmente grande, sem muito esforço. Talvez os saltos que você praticou tenham ajudado o seu corpo a perceber essa possibilidade de ação no mundo. Em outro momento talvez você nem percebesse a possibilidade de saltar a poça.
Passando pelo caminho que você faz, todo dia, para o trabalho, você percebe uma barra em uma praça que você nunca tinha reparado antes. A partir desse dia, você cria o hábito de se pendurar um pouco no caminho do trabalho. E sente um leve alívio quando, em seguida, precisa passar algumas horas sentado.
No dia seguinte você tropeça, mas os recursos que você ganhou ao tentar fazer os flows desajeitados no chão, fazem com que você consiga dissipar bem o impacto e evita se machucar sério. Ou então você até cai, mas talvez os rolamentos da aula de movimento te ajudem a cair mais macio.
E certo dia, ao pegar um peso do chão, você descobre que seu corpo encontrou uma forma diferente de posicionar sua coluna, que te traz mais conforto pra realizar essa tarefa. Talvez o trabalho de coluna da aula tenha ajudado.
E depois de uns meses você percebe que a prática de meditação está te ajudando a administrar o stress do trabalho e você inclusive usa a técnica de respiração para se acalmar em uma discussão com um companheiro de trabalho.
E, de quebra, olhando no espelho, você também vai perceber que emagreceu, que certos músculos estão mais aparentes…
Veja bem. Tudo isso que estou falando não são criações da minha cabeça. Foram percepções minhas, de outros professores e, principalmente de alunos, depois de um tempo na prática. Lembro bem quando escutei pela primeira vez o professor Ido Portal falar em movimento espiralado, em 2016 num workshop dele que eu participei. E que em seguida fomos praticar esse espiralamento com pontes e rolamentos. Eu tive insights quase instantâneos para a minha prática de capoeira que nunca tinha percebido. E eu já praticava há 20 anos!
Percebeu a diferença?
Deu pra notar a diferença? Isso é um ganho de percepção. Isso é aumento das possibilidades de movimento e ação no mundo. Isso é uma prática rica e transferível para vida.
Essa é a riqueza de uma prática de movimento. Que vai muito além da mecânica, da capacidade de realizar contração muscular de forma isolada. Saber se movimentar bem é uma transformação integral, um processo de refinamento da sua percepção. É um aumento da sua capacidade de agir no mundo. É empoderamento.
E é por isso que tantas vezes escutamos dos nossos alunos que a prática de movimento mudou a forma como eles enxergam o mundo e fazem as coisas do seu dia a dia. Desde as mais complexas até as mais banais. “Mudei completamente a relação com o meu corpo”, “Melhorei muito no surf depois de começar a praticar com vocês”. “Eu tinha medo de andar de bicicleta na rua e agora não tenho mais”. “Eu vejo as espirais em todo lugar agora”. “Meu jiu-jitsu agora é outro”. “Eu sinto que sou capaz de aprender melhor qualquer esporte”. “Até para descascar cebola eu penso em movimento”. Já ouvimos até que “a forma como eu faço meus vasos de cerâmica é outra depois das aulas de movimento!”.
Deu pra perceber a diferença?



