Afinal, existe movimento certo e errado?

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“Não existe movimento correto”, “Não existe movimento errado”. É bem provável que você já tenha escutado alguém (ou eu mesmo) falar isso pra você. Mas o que exatamente isso quer dizer? Que vale tudo? Que não importa como a gente se move? Que eu posso fazer qualquer coisa e tá tudo bem? É claro que não. E é sobre isso que quero falar nesse texto.

 

Existe movimento correto? O papel da variabilidade Motora

Comecemos então pela ideia de “movimento correto”. Quando digo que não existe movimento correto, o que quero dizer é que não existe apenas uma estratégia motora correta para realizar nenhuma tarefa. Isso quer dizer que uma mesma pessoa pode (e deve) ter diferentes formas de realizar uma mesma tarefa motora. Por exemplo. Uma pessoa deve ser capaz de abaixar para amarrar o tênis ou pegar um objeto no chão de vários jeitos diferentes. E quanto mais formas ela tem de fazer isso, mais saudável ela será. A isso damos o nome de abundância motora. A capacidade de fazer muitas coisas com uma mesma parte do corpo e a capacidade de realizar uma tarefa de diferentes formas.

Inclusive, se formos analisar o comportamento microscópico das nossas unidades motoras – os neurônios que enervam fibras musculares para produzir movimento – é impossível falar em repetição do movimento. Cada movimento que fazemos em vida, por mais aparentemente repetitivo e simétrico que seja, está sendo realizado de forma diferente no nível micro das nossas unidades motoras. Por isso o termo “repetição sem repetição”, cunhado pelo grande neurofisiologista Nikolai Bernstein. Mas não vamos entrar nessa toca do coelho aqui.

 

Voltando ao que nos interessa, dizer que não existe movimento correto é dizer que:

1 – não existe uma única forma correta de realizar nenhum tipo de movimento. Temos abundância motora.

2 – variação de movimento não é um problema, é a forma como o nosso sistema opera e, em grande medida é algo vantajoso e adaptativo.

 

A ideia de que variabilidade motora pode ser benéfica, é diametralmente oposta à forma de pensar que define “uma forma correta” para fazer as coisas, como “você só pode abaixar com a coluna reta”, “você não pode passar o joelho da linha do dedo do pé”.

Para pessoas que, como eu, valorizam a abundância motora do nosso corpo, afirmações categóricas como essa não só não fazem sentido como são prejudiciais porque incutem medo e evitação do movimento em uma pessoa, e consequentemente aumentam as chances dessa pessoa sentir dor ou mesmo se machucar.

 

Variação Interindividual e intraindividual

Outra coisa que é importante mencionar quando digo que “não existe movimento correto” é que a melhor forma de fazer alguma coisa varia de pessoa pra pessoa. Quando estamos falando de um sistema biológico e adaptativo como um ser humano, não podemos nos basear apenas em leis mecânicas pra entender o que é melhor ou pior para esse sistema.

Considerar só a mecânica de um movimento para definir se ele é bom ou ruim é desconsiderar as diferenças que existem entre indivíduos e a capacidade adaptativa do ser humano. Diferentes indivíduos vão responder de forma diferente ao mesmo movimento porque, além de sermos diferentes, ainda temos uma história de vida diferente que nos fez ser mais ou menos adaptados para diferentes tipos de estímulos.

Na prática, isso quer dizer que uma pessoa pode achar super de boa dobrar a coluna para pegar algo pesado no chão enquanto outra pode sentir uma dor monstruosa para realizar o mesmo ato motor. Aqui estamos diante de uma questão de sensibilidade e adaptação específica a cada indivíduo e não uma questão puramente mecânica.

Um outro aspecto importante que joga a ideia de movimento correto pela janela é que não existe apenas variação de possibilidades de movimento entre indivíduos. Existe também variação em um mesmo indivíduo ao longo do tempo. A isso damos o nome de variação intraindividual. Somos sistemas dinâmicos que, ao trocar informação com o meio em que vivemos, sofremos transformações. Estamos em mudança constante. Você hoje não é o mesmo que você ano passado. Nem semana passada e nem um segundo atrás. Então o que funcionava pra você no passado pode não funcionar hoje e vice-versa. Como então seria possível definir uma regra global e estática a respeito de um “movimento correto” para ser aplicada a sistemas tão variados e dinâmicos? Não é possível.

 

Os problemas da ideia de movimento correto. O que a literatura científica diz?

Ok, joguei alguns argumentos no ar, mas vamos agora ver o que a literatura científica tem a dizer sobre tudo isso.

Porque se existem certos movimentos errados, então nós devemos ser capazes de encontrar uma relação entre certos tipos de movimentos ou posturas e uma maior incidência de dores e lesões nas pessoas que realizam esses movimentos e posturas certo?

Errado. A literatura científica não encontrou nenhuma relação definitiva entre a nossa postura, ou a forma como nos movemos e um maior índice de lesão ou dores. E não é porque não procuramos essa relação. Postura ruim com costas arredondadas, ou pescoço pra frente, ombros rotacionados pra dentro ou movimento das escápulas tido como “disfuncional”, não se relacionam a mais dor.

Lordose, posição da pelve, e a forma como movemos nossa lombar e pelve também não tem relação direta com mais ou menos dor. Não foi encontrada nenhuma forma específica de correr específica que aumentasse o risco de lesão.

Se existem movimentos corretos, deveríamos ser capazes de fazer avaliações de movimento que nos dessem um poder de prever lesões futuras certo? Afinal, de acordo com esse paradigma, pessoas que se movem errado têm mais chance de se lesionar. Aqui chegamos em mais um problema. Avaliações posturais  e de movimento não tem nenhum poder preditivo sobre lesões futuras. Estudos mostram que não somos tão bons assim em identificar a famosa discinese escapular. Diferentes profissionais terão diferentes opiniões sobre o mesmo paciente. E para piorar. Mesmo em casos onde eles concordam, a discinese não tem relação clara com dor.

Tá bom, mas se nosso olho não é tão bom em identificar problemas posturais e de movimento, talvez os exames de imagem sejam, afinal, são máquinas, e máquina são precisas. Também não. Achados em exames de imagem também não são muito eficientes em encontrar relação com dor no ombro, na coluna como um todo, ou apenas na lombar.

Afinal, exames de imagem identificam alteração no tecido e não dor. E quem me acompanha por algum tempo já sabe que alteração no tecido ou mesmo uma lesão, não é o mesmo que dor. Caso você ache essa afirmação estranha, recomendo ler meu texto sobre dor.

No entanto, fisioterapeutas e profissionais em geral, seguem achando que abaixar com coluna flexionada é perigoso, que passar o joelho da ponta do pé faz mal e que devemos evitar impacto a todo custo. E hoje sabemos que as crenças dos profissionais tem um efeito sobre o desfecho do tratamento e que o medo que profissionais botam nos pacientes tem um efeito negativo sobre o tempo de recuperação e sobre a funcionalidade desses pacientes.

Mas exercícios de “correção postural” são completamente inúteis e devem ser esquecidos? Não necessariamente porque eles até podem ter um efeito positivo sua dor e te fazer crer que eles funcionam. Mas o que a literatura mostra é que, primeiro, exercícios corretivos, mesmo quando tem um efeito positivo sobre a dor, o fazem sem uma mudança no padrão de movimento. Ou seja, a melhora da dor é um fenômeno independente da correção da postura.  A dor melhora, mas não porque eles corrigiram nada.

Um dos grandes motivos da dor ter melhorado se deve ao fato de que qualquer atividade física tem um efeito sistêmico positivo sobre dor, e o efeito ainda é mais facilmente sentido entre pessoas sedentárias. Você pode andar de bicicleta ou fazer pilates e melhorar sua dor nas costas. E isso acaba confundindo as pessoas, fazendo-as pensar que foi “a correção da postura” que resolveu sua dor. É claro que para pessoas específicas, diferentes atividades vão ter diferentes efeitos. Então pilates pode ser muito melhor pra dor nas costas de uma pessoa enquanto bicicleta é melhor para outra. Mas populacionalmente não há como definir uma atividade superior.

 

E qual a diferença disso tudo na prática?

Vamos agora trazer um exemplo prático de como essa diferença de pensamento muda a nossa forma de agir no mundo real. Digamos que você sente dor ao abaixar pra pegar algo do chão. E que um amigo te disse que contrair o abdômen pra abaixar, e abaixar com a coluna reta é a forma correta e que você deveria fazer isso pra melhorar sua dor. Você resolve seguir o exemplo do seu amigo e, milagrosamente, quando você se abaixa contraindo conscientemente o abdômen e com a coluna neutra, você não sente tanta dor.

Quem pensa que existe uma forma correta de realizar os movimentos e essa forma é a que respeita os princípios da uma suposta “biomecânica ideal” vai dizer: viu só? você não sente dor porque está abaixando da forma correta. Porque quando você flexiona a coluna você sobrecarrega seus discos intervertebrais e, por isso, sente dor. Solução? Evitar o movimento “errado” e fazer exercícios corretivos, pra “consertar o seu padrão motor” e melhorar a sua dor.

Mas alguém que pare para fazer o raciocínio mais elementar pode pensar: ué? Porque então que tantas pessoas (a esmagadora maioria das pessoas na verdade) abaixam com a coluna curvada e a maioria não sente dor? Se o movimento é errado e causa dor, era pra todo mundo sentir dor ao fazê-lo certo? Infelizmente os terroristas biomecânicos ainda não chegaram nesse nível de raciocínio.

Qual é então a explicação que uma pessoa mais atualizada com a literatura científica daria nesse caso? Se dói quando você flexiona a coluna pra abaixar não é porque o movimento é errado em si. E sim porque você, por algum motivo é sensível à esse movimento. E se para de doer quando você contrai o abdômen, não é porque você encontrou “a forma correta”, e apenas porque você modificou a forma como se move. Não estamos diante de uma questão puramente mecânica e que se aplica a qualquer pessoa. Estamos diante de questão específica de sensibilidade individual. Quando pensamos assim, deixamos de ver o corpo como um agregado inerte de tecido e começamos a pensar no ser humano como um todo.

A sensibilidade nesse caso pode ser atribuída a diversos fatores. Falta de exposição específica, questões biomecânicas, mas também crenças, níveis gerais de saúde, onde podemos incluir questões como sono, alimentação, níveis de inflamação e stress…

Então, qual seria a solução? No curto prazo, alterar a estratégia motora dolorosa pode ser válido para minimizar a dor. Então agachar com a coluna reta por um tempo, se isso alivia a dor, pode sim ser uma estratégia válida. Mas válida não porque é a forma correta de se mover e, apenas porque a modificação do movimento gerou uma modificação dos sintomas.

A diferença de verdade entre as abordagens começa agora. Porque o objetivo central aqui não é corrigir o movimento e nem apenas eliminar a dor. Minimizar a dor é apenas uma ferramenta para permitir que a pessoa se movimente. O objetivo principal é recuperar a função daquele indivíduo. E proibi-lo de dobrar a coluna não é o caminho. Pelo contrário. O caminho é torná-lo capaz de dobrar a coluna sem dor.

Para isso é preciso traçar um plano de exposição gradual ao movimento doloroso – dobrar a coluna nesse caso – para que seu corpo entenda que aquele movimento é seguro e possa construir as capacidades que, com o tempo, vão tornar essa pessoa capaz de realizar aquele movimento sem dor. É um trabalho que envolve adaptações tanto neurológicas quanto físicas. Estamos falando de construção muscular, mas também de um “convencimento neurológico”.

 

Pensar diferente traz resultados diferentes

E quais as diferenças no desfecho desses dois tratamentos que citei? No primeiro caso, do tratamento desatualizado baseado em correções e evitação de movimentos “errados”, a pessoa possivelmente terá melhora nos sintomas de dor. Mas também sairá do processo fragilizada. Porque ela terá que, para o resto da vida, evitar dobrar a coluna. E se, em algum momento, a vida demandar essa estratégia dela, ela vai sentir dor e pode até se machucar porque seu corpo não vai estar preparado pra isso.

Já no segundo caso, através da exposição gradual, houve um ganho de capacidade real. A pessoa provavelmente teve que suportar alguma dor no processo, mas ela sai dali mais resiliente e funcional. Ela será capaz de abaixar com a coluna curvada ou com a coluna neutra. Será capaz de variar. E esse é o real objetivo da reabilitação. Restaurar a função e a variabilidade adaptativa do sistema. E não apenas minimizar os sintomas de dor.

Porque restaurar a capacidade de variar é importante? Alguns motivos. Primeiro porque a vida não é linear nem previsível. E não sabemos quando e nem como ela vai nos demandar movimento. Por isso, é importante estarmos preparados. Quem só se move em ambientes controlados e lineares e nunca se expõe a movimentos tidos como errados ou fora do alinhamento, a impacto ou a movimentos mais demandantes, dificilmente estará preparado para um imprevisto, para uma situação nova.

Além disso, a literatura é clara em afirmar que a alguma variabilidade motora é um fator importante e protetivo contra lesões. Pois ter diferentes estratégias motoras para resolver demandas de movimento nos leva a uma adaptabilidade maior no sentido de que posso distribuir as cargas de uma demanda entre diferentes tecidos do meu corpo. Dessa forma, além da variabilidade motora poder melhorar a performance, ao me permitir seguir realizando a mesma tarefa mesmo depois das primeiras estruturas cansarem, ainda permite que eu não precise sobrecarregá-las, distribuindo melhor as forças que se aplicam sobre o meu corpo e diminuindo o meu risco de lesão.

 

Existe movimento errado?

Agora que já entendemos que falar em “movimento correto” é algo bem problemático, vamos para a segunda parte. “Existe movimento errado?”

Resposta curta? Existe. Mas não da forma como provavelmente você está pensando. Rigorosamente, movimento errado é aquele que não me levou na direção de concluir com sucesso uma demanda de movimento. Se eu queria correr atrás de um ônibus e eu tropecei, esse foi um movimento errado. Se eu quero chutar uma bola e rompo meu ligamento cruzado, esse chute foi um movimento errado. Se eu quero levantar uma caixa do chão e sinto uma forte dor nas costas que me impede de pegar a caixa, esse foi um movimento errado.

Ora, então qual a diferença disso para o que os posturistas defendem? Muito grande. Perceba que o que define o “erro” no movimento, não é sua forma específica. Mas o fato dele não ter sido capaz de cumprir com o seu objetivo. Quem determina o erro ou acerto do movimento é a tarefa e o indivíduo que está realizando e não a forma como ele o faz. Não importa se eu abaixei para pegar a caixa com a coluna reta ou curvada, com mais ou menos flexão de joelho ou quadril, torcendo ou não. Até porque, como já vimos, não existe nenhuma relação clara entre certas formas de se mover e o aumento no risco de lesão. O que importa é se a estratégia foi bem sucedida ou não. Movimento errado é aquele que não cumpre com seu objetivo.

E o que isso muda na prática? Muda que a solução para termos menos “movimentos errados” na nossa vida, assim como para termos mais “movimentos corretos”, não passa por correção de postura ou movimento. Passa por exposição gradual a variação. Passa por realizar mais movimentos, de formas diferentes, com meu corpo para que ele se adapte a uma grande quantidade de possibilidades motoras. Evitar movimentos errados envolve fazer movimentos tidos como “errados” por posturistas para que meu corpo seja capaz de realizá-los, de modo que, no futuro, eles sejam cada vez menos errados.

Portanto, sim, é possível dizer que existem movimentos certos e errados. Mas essas definições não são propriedades do movimento em si e sim da relação entre o movimento, o indivíduo que os realiza e a tarefa que o ambiente demanda dele. Sem considerar o indivíduo e a tarefa é impossível determinar que um movimento é certo ou errado. Porque o mesmo movimento pode ser certo para uma pessoa e errado para outra pessoa. E para uma mesma pessoa, ao longo do tempo, o que é certo e errado, bom ou ruim, está sempre mudando.

E a forma como devemos pensar sobre prevenção e reabilitação de dores e lesões é pela via da exposição gradual a maior variabilidade de movimento e não através da evitação e correção do movimento. E é por isso que, se algum profissional de saúde te diz que você está “se movendo errado” e que precisa corrigir seu movimento para evitar dores e lesões”, desconfie.

 

Espero que tudo isso tenha feito sentido. Obrigado por ter chegado até aqui. =D